quinta-feira, 15 de maio de 2014

A início e o fim de um amor

Fora num domingo à tarde quando a conheci. estava a sós, na beira do Rio Guaíba, outrora límpido, mas ainda assim um ótimo lugar para passar a tarde. Sentado na areia, imaginava o que seria minha vida agora que terminava a faculdade. Foi então que a vi. Aproximando-se curiosa, sentou-se ao meu lado. Passei então a observar a mulher que se sentava a apenas dois metros de mim. era linda, possuía longos cabelos castanhos. Seu corpos, dotado de sinuosas curvas e peito avantajado.
        -É lindo, não é? - disse ela, voltando-se para mim, olhos verdes brilhantes.
        Passei a fitá-la, sem saber o que responder.
        -Quero dizer, acho incrível esse lugar. É um lugar para fugir, se esconder dos problemas.
        Tomei coragem e disse:
        -Realmente é. Sabe, venho aqui todo final de tarde relaxar, são tempos difíceis para mim.
        -Difíceis por quê? - indaga, curiosa.
        -Sei lá. Há tempo que sinto que algo me falta, mas não sei o quê. Terminei a faculdade hoje e terei minha formatura no sábado, mas mesmo assim não consigo me sentir feliz. Tenho tudo, mas ainda sinto como me faltasse alguma coisa.
        -Faltasse o quê?
     -Não sei, sempre me senti confiante, mas agora, de uma hora para outra, me sinto abandonado, triste.
        -Desculpa, mas preciso ir. Já é tarde, preciso terminar meu TCC. O teu nome é?
        -Roberto, e o teu?
        -Júlia.
        E saiu andando, se afastando cada vez mais do sol que se punha, até chegar em seu carro e finalmente partir. Continuei lá, parado, olhar fixo no horizonte. Júlia. Peguei um livro e pus-me a ler. Contos duma Tarde de Verão. O li por meia hora, até que uma frase me chamou a atenção: “Aquele que você ama não é apenas quem você morreria por, e sim aquele pelo qual você mataria”. A frase, macabra a princípio, tomou conta de minha cabeça. Era assustadora, mas ao mesmo tempo parecia ter um significado. Fechei o livro e fui para casa.
        Ao chegar, fui direto ao meu quarto. Deitei-me na cama e passei a olhar para o teto, enquanto era encarado pelo Renato Russo de papel colado em minha parede. Comecei a pensar em Júlia. Pensei em ligar para ela, porém lembrei-me de que não havia pedido seu número de telefone. Ouvi meu pai me chamando para assistir a uma matéria na TV. Era sobre o voo 676 da China Airlines, que havia caído durante a tarde, matando 202 pessoas. Imagens de pessoas em agonia e desespero percorriam livremente a tela. Parentes em pânico, sabendo que jamais veriam seus filhos, irmãos e irmãs. Lembrei-me da frase que havia lido. Subitamente, vi o sentido macabro, porém coerente da mesma. A morte é pior para os que ficam. O sofrimento do morto é instantâneo, o do sobrevivente é eterno.
        De súbito, virei-me e voltei ao meu quarto, ao som de meu pai chamando-me de volta. Deitei-me na cama novamente. Não pude tirar a frase de minha cabeça, nem muito mesmo esquecer de Júlia. Tentei dormir, porém custei a cerrar os olhos. Foi uma noite sem sonhos.
        No dia seguinte, primeiro dia livre que tive depois de quatro anos de faculdade, decidi ir passear pela orla do Guaíba, em boa parte para ver se a encontrava novamente. Passados alguns minutos, encontrei-a sentada no Anfiteatro Por do Sol. Sentei-me ao lado dela.
             -Oi, Júlia.
        -Oi, Roberto! - disse a moça com entusiasmo enquanto se levantava para me cumprimentar.
        Sentamos lado a lado novamente. Conversamos, rimos e, principalmente ouvimos um ao outro. Pela primeira vez na vida sentia que alguém era capaz de me entender. Peguei seu número de telefone. Passamos a nos encontrar todos os dias e a nos ligarmos todas as noites. Descobri que sua cor favorita era amarelo. Ela descobriu que a minha era azul.
        Vários dias se sucederam até que o inverno chegasse e que eu descobrisse que a amava. Um amor que não era um amor carnal. Era um amor etéreo, o mais puro e sublime amor. Já havia se passado seis meses desde que nos conhecemos. Decidi então pedi-la em casamento. Marcamos a cerimônia para o final de outrubro.
        Já era tarde da noite quando voltávamos do restaurante. Faltavam apenas duas semanas para nosso casamento. Andávamos pela rua em silêncio quando dois adolescentes cruzaram a rua. Subitamente, um terceiro pulou atrás de nós, imobilizando-me. Júlia deu um grito e foi rapidamente calada por um dos adolescentes que se aproximava. Estávamos a sós e cercados por três adolescentes com facas em riste. Júlia gritou por socorro. Assustado, um dos adolescentes golpeou-a na face, cortando ambas as bochechas. Júlia gritou, porém som algum saiu de sua boca, pois o adolescente desferiu outro golpe, desta vez em sua garganta. Em pânico, soltei-me do bandido que me segurava e arranquei a faca de sua mão, golpeando-o no abdômem com a própria arma. Virei-me e acertei o outro na bochecha, mas era tarde demais. A sensação quente e agonizante da faca penetrando em meu estômago, rasgando meus músculos e pele percorreu meu corpo. Agonizante, caí no chão e vi os adolescentes correndo à distância. Olhei para o lado, a visão já embaçada pela perda de sangue. Vi Júlia ao meu lado, inerte, porém vi, ou pelo menos imagino que vi, sua cabeça virar-se para mim e sorrir. A morte era minha benção. Ver Júlia morrer nos meus braços tornaria cada dia não mais um dia vivido, e sim um dia sobrevivido. E sorri, a visão já completamente escura. E a escuridão nunca mais se partiu.

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